Cerca de 45 mil pessoas na Avenida dos Aliados, no Porto, para assistir ao terceiro Road Show em todo o mundo. Em 2007 foi em Varsóvia e no ano passado em Buenos Aires. O evento marca o tão desejado regresso dos ralis ao Norte do país e antecipa o Vodafone Rally de Portugal, que começa no dia 27.
Grandes saltos e muitos piões estão reservados para esta tarde domingo bem quente, com temperatura a rondar os 30ºC, e com os espectadores protegidos do escaldante Sol por bonés distribuídos de forma gratuita, encarnados e com o símbolo da rede de comunicações que patrocina o Rali de Portugal. De um extremo ao outro, nas margens e no centro da Avenida, por todo o lado estão pessoas à espera que os bólides acelerem pelo troço de 950 metros desenhado por Armindo Araújo.
O campeão mundial de produção em título diz que “o circuito até é bastante interessante”. Armindo Araújo começa por prometer aos portugueses uma vitória no grupo N, no Vodafone Rally de Portugal. O piloto de Santo Tirso agradece aos colegas por estarem presentes neste Porto Road Show, que proporcionarão um “grande espectáculo”.
Sem dúvida que as expectativas são as maiores, pois entre os 13 pilotos presentes estão nomes como Sébastien Loëb, Daniel Sordo, Kimi Raikkonen, Mikko Hirvonen, Jari-Matti Latvala, além dos portugueses Bernardo Sousa, Armindo Araújo e Vítor Pascoal. Foram ainda convidados nomes não tão sonantes, como Nick Georgiou, Peter Horsey, Hayden Paddon, Alex Raschi e Ott Tänak, todos membros da equipa Pirelli Star Driver, da Mitsubishi.
E não é o simulador WRC a captar a maior parte da atenção do público que correu à baixa. Para as 14h30 está marcada uma sessão de autógrafos com todos os pilotos disponíveis para rubricar os cartazes (grandes, médios e pequenos) que estão a ser distribuídos pelas assistentes de organização. É um autêntico gáudio quando o speaker de serviço anuncia o início da sessão. De uma ponta à outra da mesa estão os pilotos rodeados de repórteres de imagem/fotográficos. Apesar não haver excessos, é impossível a organização evitar alguma confusão à entrada para o espaço.
A alegria de ter a assinatura de alguns dos ídolos do desporto automóvel é imensa. David é testemunha disso: “estou muito feliz, já tenho o autógrafo do Armindo, do Pascoal, e de mais alguns”. Apesar da euforia, alguns permanecem um pouco tristes por não chegar a tempo de conseguir uma rubrica, uma foto, ou simplesmente um olhar daquele que seguramente é o mais popular entre todos: o francês Sébastien Loëb. Adelino Aguiar até trouxe um Citroën C4 em miniatura para o hexa-campeão do mundo de WRC assinar, o que acabou por não acontecer. Apesar da desilusão, Adelino aposta na vitória do francês para o Rali de Portugal, apesar de preferir a vitória de “um português, o Armindo”. Este adepto do automobilismo acrescenta o desejo de voltar a ver o Rali de Portugal no Norte do país.
Acaba a sessão com muitas pessoas ainda à espera do autógrafo. É que às 15h30 tem início a fase de adaptação ao traçado. Antes disso, Bernardo Sousa mostra a sua satisfação pelo desenho da etapa: “é um traçado magnífico, muito bem conseguido. Estão reunidas todas as condições para que seja um grande espectáculo”, diz o piloto madeirense.
E é nesta pausa antes do aquecimento que os pilotos dialogam com os jornalistas. Mikko Hirvonen fala das diferenças existentes entre usar um carro de estrada, neste caso, e usar um carro de competição, o que está para acontecer na próxima semana. O piloto finlandês da Ford diz que “enquanto é necessário haver maior cuidado com suspensão e diferenciais no Rali de Portugal por causa dos saltos e das rochas escondidas, neste tipo de provas não é preciso tanta precaução”. Hirvonen acha o carro de estrada mais “confortável” e o carro de competição mais “eficaz”. O compatriota e companheiro de equipa de Hirvonen, Jari-Matti Latvala, destaca as dificuldades sempre presentes no Rali de Portugal e elogia o trabalho de Araújo na elaboração do traçado, que o finlandês considera “interessante.”
Chegada a hora do início da fase de preparação, os milhares de amantes do desporto automóvel deliram quando vêem a bandeira portuguesa ser agitada por Mikko Hirvonen durante a sua passagem pelo circuito. O furor repete-se aquando da entrada de Armindo Araújo e Bernardo Sousa na pista, eles que têm a bandeira nacional colocada na parte traseira do automóvel, com o acréscimo de Bernardo Sousa não esquecer as suas origens e querer mostrar também a bandeira da Madeira.
Importa referir que cada passagem pelo circuito dos Aliados dura cerca de um minuto. Daí que tanto a Ford como a Citroën tenham trazido apenas um veículo para Hirvonen e Lattvala, e para Loëb, Sordo e Raikkonen.
Com o decorrer da primeira sessão de treinos, acentua-se ainda mais o gosto pelo traçado idealizado por Armindo Araújo. O jornalista da RTP e habitual elemento das corridas em Portugal, João Fernando Ramos, afirma que esta etapa é “fantástica”. E vai mais além quando defende a vinda do Rali de Portugal para o Norte: “É aqui no norte que há mais avisionados, mas o turismo e o dinheiro obriga a que o Rali ainda seja no Algarve”.
Quem também simpatiza com esta prova é o hexa-campeão mundial Sébastien Loëb. O francês está protegido por um guarda-sol, numa das esplanadas junto ao parque, com a companhia de outros elementos da Citroën onde a boa disposição é notória. Ele diz ter gostado do momento passado na pista e que “isto é mais para o público, mas nós divertimo-nos muito”. O Rali de Portugal é um poço de “boas recordações” para o gaulês, ele que elogia a prova e o país por haver sempre um “bom ambiente”.
Ainda antes do início de mais uma sessão de treinos, um aglomerado de pessoas corre para a escada de acesso à bancada VIP situada entre os espaços Paddock, semelhante ao parque de assistências de uma prova de Rali normal. É que uma senhora tinha desmaiado na bancada. A confusão é tanta que a mulher teve de ser deitada no chão, à espera do INEM que, mesmo situado a escassos metros de distância, tardava em chegar por causa do camião da Ford que bloqueava o acesso da maca ao local. Um automóvel acabou por ser afastado e a mulher é levada pelo INEM. A organização do Road Show tratou de assegurar todas as condições, com várias unidades do INEM presentes no local, para além das cerca de 120 unidades de segurança pública destacados para o evento, segundo elemento oficial.
Na segunda sessão de treinos, merece destaque Armindo Araújo, para o qual é dirigido um grande aplauso, e ainda Bernardo Sousa que esbarrou com a parte dianteira do carro numa das barreiras de segurança, danificando o pára-choques do seu Ford Fiesta S2000. A situação de pronto veio a ser resolvida. Sem dar espectáculo, mas também merecedor de uma grande ovação, é uma das ambulâncias do INEM obrigada a passar pela pista, única hipótese. Momento inesperado nesta tarde. Outro episódio curioso é a constante corrida dos agentes policiais, mas à busca de um autógrafo.
Meia dúzia de automóveis clássicos pelos Aliados é a surpresa da tarde. Os convidados de honra são os pilotos presentes no espectáculo que, sentados na traseira dos veículos, dão a volta ao circuito, possibilitando a captura de melhores fotos, a troca de olhares, sorrisos e acenos com o público, pois o desfile decorre a uma velocidade a que os automobilistas não estão habituados. Tanto que Armindo Araújo terá tido o tempo suficiente para ler o cartaz “Armindo e Miguel, o Porto orgulha-se de vocês”. Miguel Ramalho é o co-piloto de Araújo.
Já para lá das cinco da tarde começa a verdadeira prova de Rali que, não obstante ser só de exibição, sempre tem um favorito ao melhor tempo, como é o caso de Loëb. Ainda assim, é Dani Sordo a receber mais aplausos, pois é o que mais espectáculo dá nos saltos e nas zonas de piões. Consegue um registo de 52.9 segundos. Mais uma vez os portugueses são os mais acarinhados pelo público.
A prova acaba e fica à vista que estas gentes querem mais, muito mais. Não só a nível de iniciativas a esta semelhantes, mas também no que a autógrafos e fotografias diz respeito. Sordo assegurou o melhor tempo. Quer Loëb, quer Raikkonen procuraram superar a marca do espanhol, mas o C4 da Citroën ficou com alguns problemas electrónicos impeditivos de uma prestação ao mais alto nível.
Após a recolha de todas as equipas aos seus espaços de assistência, é a corrida total dos espectadores a um autógrafo. Quem consegue mesmo uma foto com todos os pilotos foi o Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio, e Carlos Barbosa, o presidente da ACP, Automóvel Club de Portugal, entidades organizadoras da prova.
Os pilotos do mundial WRC rapidamente abandonam o recinto, com Loëb, Sordo, Hirvonen e Latvala ainda a distribuírem algumas assinaturas. Apenas Raikkonen passou pelos espectadores sem olhar, sorrir ou acenar.
Ainda tempo para declarações dos pilotos portugueses. A começar pela equipa de Vítor Pascoal que faz um balanço “positivo”. “É uma iniciativa de louvar da ACP e da Câmara do Porto e espero que repitam porque todo o público gostou e isto beneficia a cidade do Porto”, afirma o piloto de Amarante. Bernardo Sousa também partilha da mesma opinião que o companheiro e, questionado sobre qual a mão que lhe dói mais, respondeu: “a esquerda, por dar tantos autógrafos”.
Ainda pela zona estão o Presidente da ACP e o Autarca do Porto. Carlos Barbosa fala numa “coisa maior para o ano que vem”. É uma possibilidade a ser ponderada, pois “vale a pena, mas não podemos fugir muito deste género”, assegura Carlos Barbosa, que sugere a realização do evento à noite. Rui Rio afigura-se mais satisfeito pela promoção da cidade: “toda esta prova foi vista em todo o lado”. Tal como Barbosa, Rui Rio deseja um novo Road Show em 2011. “Provavelmente vai repetir-se, foi um êxito”, declara o autarca da Invicta com um sorriso rasgado de orelha a orelha.
Por entre as árvores dos Aliados ainda está Armindo Araújo. O piloto felicita a organização e sobre 2011 diz com convicção: “Gostaram? Então vamos repetir.”
Ficam agora todos os apaixonados pelo automobilismo à espera que 2011 chegue rápido e com um novo Road Show, enquanto os funcionários da Câmara passam o resto do dia a recolher todo o lixo espalhado pela Avenida, hoje transformada numa espécie de autódromo.